Como investir em fundos sustentáveis ESG em Portugal
Descubra o que são fundos sustentáveis, como funcionam, e que empresas suportam a sustentabilidade. Saiba como fazer um investimento sustentável.
Nos últimos anos, a sustentabilidade ambiental passou de ser uma “tendência” para ser um critério estratégico no contexto empresarial. Hoje, cada vez mais os investidores procuram que o seu capital esteja alinhado com valores ambientais, sociais e de boa governação.
É neste enquadramento que surgem os fundos de investimento sustentáveis, uma solução que permite aplicar capital em empresas e projetos que seguem critérios de responsabilidade e impacto positivo, que integram fatores ESG (Environmental, Social and Governance) no processo de seleção de ativos. Na prática, isto significa privilegiar organizações que demonstram compromisso com a redução do impacto ambiental, a responsabilidade social e uma governação transparente e sólida.
Ao canalizar recursos para empresas que adotam boas práticas ambientais, sociais e de governação, os fundos sustentáveis contribuem para uma economia mais sustentável ao mesmo tempo que procuram gerar um retorno financeiro ajustado ao risco.
Mas afinal, o que distingue um investimento sustentável de um investimento tradicional?
O que é um investimento sustentável ESG?
O investimento sustentável é uma abordagem que integra critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) na análise e na seleção de ativos financeiros. Isto significa que, além dos indicadores económicos e financeiros, são avaliados também, fatores como:
● Impactos ambientais das empresas (emissões de carbono, eficiência energética, gestão de resíduos);
● Práticas laborais de impacto social;
● Transparência, ética, responsabilidade e qualidade da governação corporativa.
Nos fundos sustentáveis, o capital dos investidores é aplicado em empresas que demonstram compromisso com estes princípios, e que promovem modelos de negócio responsáveis e alinhados com os objetivos de desenvolvimento sustentável.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, esta estratégia não implica apenas abdicar de um retorno financeiro. Pelo contrário, a integração de critérios ESG pode contribuir para uma melhor gestão de riscos. Além disso, a crescente procura por soluções de fundos ESG tem impulsionado também o desenvolvimento de produtos financeiros mais transparentes e alinhados com padrões de investimento responsável.
Como funcionam os fundos sustentáveis
Os fundos de investimento sustentáveis funcionam de forma semelhante aos fundos tradicionais, que reúnem o capital de vários investidores para aplicação conjunta em diferentes ativos financeiros. A principal diferença entre estes reside na integração sistemática de critérios ESG no processo de seleção e acompanhamento dos investimentos.
No contexto europeu, este enquadramento está suportado pela regulamentação específica, nomeadamente o Regulamento (UE) 2019/2088 - Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR)Você será redirecionado para outro site e ele abrirá em uma nova janela e o Regulamento da Taxonomia Europeia (Regulamento (UE) 2020/852)Você será redirecionado para outro site e ele abrirá em uma nova janela.
Na prática, a sociedade gestora do fundo:
● Define quais são os critérios de elegibilidade que estejam alinhados com políticas de sustentabilidade;
● Avalia as empresas com base em indicadores ESG reconhecidos;
● Exclui os setores ou atividades que sejam considerados incompatíveis com objetivos ambientais ou sociais;
● Monitoriza continuamente o desempenho financeiro e não financeiro das empresas.
Diferença entre fundos sustentáveis e fundos tradicionais
Embora partilhem a mesma base, ou seja, a agregação de capital de um ou vários investidores e a gestão profissional por uma entidade autorizada e supervisionada, os fundos sustentáveis distinguem-se dos fundos tradicionais pela forma como integram fatores de sustentabilidade ambiental, sociais e de governança (ESG) no processo de investimento.
Nos fundos tradicionais, a decisão de investimento assenta principalmente em critérios financeiros, como: rentabilidade esperada, risco, liquidez, desempenho e perspetivas de crescimento. Já nos fundos de investimento sustentáveis, estes critérios são complementados por uma avaliação estruturada de fatores ESG.
Outra diferença relevante prende-se com a classificação dos produtos:
● Fundos que promovem características ambientais ou sociais (Artigo 8º do SFDR);
● Fundos que têm como objetivo explícito investimentos sustentáveis (Artigo 9º do SFDR).
Os fundos tradicionais que não integram critérios de sustentabilidade de forma estruturada, enquadram-se, em regra, no Artigo 6º do regulamento, que obriga as entidades financeiras a divulgar de que forma integram (ou não) os riscos de sustentabilidade nas decisões de investimento e qual o possível impacto desses riscos na rentabilidade dos produtos financeiros.
Adicionalmente, os fundos ESG podem excluir determinados setores, privilegiar empresas com o melhor desempenho ambiental ou investir em atividades que estejam alinhadas com a Taxonomia Europeia (Regulamento (UE) 2020/852), que define critérios para determinar quando uma atividade económica é considerada ambientalmente sustentável.
Em síntese, os fundos tradicionais focam-se essencialmente na sua performance a nível financeiros, enquanto que os fundos sustentáveis procuram conciliar um retorno financeiro com responsabilidade e boas práticas de governação.
Como investir em fundos de investimento sustentáveis
Investir em fundos de investimento sustentáveis implica não só escolher um produto alinhado com critérios ESG, mas também garantir que essa escolha faz sentido para o seu perfil financeiro. Em Portugal, os fundos de investimento são supervisionados pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), e a sua comercialização segue as regras de transparência e adequação ao perfil do investidor previstas na legislação europeia, nomeadamente na diretiva europeia MiFID II.
De forma prática, o processo pode ser dividido em 5 etapas:
1.Definir objetivos e perfis de risco
Antes de investir, é fundamental refletir sobre a tolerância ao risco, necessidades de liquidez, objetivos financeiros e não financeiros (incluindo os critérios de sustentabilidade). Atualmente, as instituições são obrigadas a considerar as preferências de sustentabilidade do cliente no momento do aconselhamento e garantir que os produtos recomendados estão alinhados com essas expectativas.
2.Verificar a classificação do fundo (SFDR)
É crucial analisar a documentação oficial do fundo, nomeadamente o Documento de Informação Fundamental (DIF ou KID) e o prospeto, onde deve constar a classificação ao abrigo do Regulamento SFDR:
Artigo 8º - Fundos que promovem características ambientais ou sociais;
Artigo 9º - Fundos com objetivo de investimento sustentável;
Artigo 6º - Fundos que integram riscos de sustentabilidade, mas sem objetivos específicos ESG.
3.Analisar a política de investimentos e os critérios ESG
Para além da classificação, é importante verificar que critérios ambientais, sociais e de governação são utilizados, se existem algumas exceções setoriais claras, se o fundo declara alinhamento com a Taxonomia Europeia e de que forma monitoriza os riscos de sustentabilidade ao longo do tempo.
4.Avaliar custos, riscos e histórico de desempenho Tal como em qualquer outro investimento, devem ser analisadas as comissões de subscrição e gestão, o nível de risco (indicador sintético presente no DIF), estratégias de diversificação e desempenho passado (sem que este constitua garantia de rentabilidade futura).
5.Subscrição do fundo
Esta subscrição deve ser feita após analisar todos os fatores indicados anteriormente, e pode ser efetuada através de uma instituição financeira ou outra plataforma de investimento autorizadaVocê será redirecionado para outro site e ele abrirá em uma nova janela.
Importa sublinhar que, apesar de promoverem empresas e sustentabilidade, os fundos sustentáveis continuam sujeitos a riscos de mercado, de crédito e liquidez. A integração de critérios ESG não elimina a possibilidade de perdas financeiras.
Empresas de sustentabilidade em Portugal
As principais empresas de sustentabilidade em Portugal destacam-se por compromissos reais com a economia circular, descarbonização e transparência em fatores ESG. Entre as mais notáveis estão:
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Grupo EDP
Líder em energia renovável, integra os rankings internacionais de sustentabilidade, como o Euronext Vigeo Eiris e o Dow Jones Sustainability Index (DJSI), com forte foco em transição energética e inovação limpa.
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Jerónimo Martins
Reconhecida globalmente, integra o ranking das 120 empresas mais sustentáveis do mundo e tem metas ambiciosas de redução de desperdício alimentar e pegada carbónica.
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The Navigator Company
Destaca-se por práticas sustentáveis na produção de papel e celulose, com baixo impacto ambiental e certificações internacionais.
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Sonae
Uma das empresas mais responsáveis em Portugal, com liderança em sustentabilidade ambiental e social, segundo rankings como o Merco.
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Galp Energia
Apesar de desafios no setor petrolífero, é a melhor da Europa em “Oil & Gas” no DJSI, com destaque em estratégia climática e gestão de riscos hídricos.
Papel das empresas para a sustentabilidade ambiental
As empresas desempenham um papel importante na sustentabilidade ambiental, na medida em que as suas decisões sejam elas operacionais ou de investimento representam um impacto direto na utilização de recursos naturais, emissões de gases com efeito de estufa e na transição para modelos econômicos mais eficientes. A adoção destas práticas não só contribui para a mitigação das mudanças climáticas e da degradação ambiental, mas também traz vantagens competitivas, como redução de custos, melhora da imagem corporativa, atração de talentos e aumento da satisfação dos clientes.
Para os investidores particulares e empresariais, é importante compreender o papel das empresas no que toca à transição sustentável para avaliar a consistência dos fundos de investimento sustentáveis e o potencial na criação de valor a longo prazo.
Segundo um relatório divulgado sobre práticas de sustentabilidade das empresas portuguesasVocê será redirecionado para outro site e ele abrirá em uma nova janela, os dados mostram que quando as organizações apresentam uma classificação elevada em fatores ESG, quase 90% delas registram resultados líquidos positivos.
Tipos de fundos de investimento sustentáveis
Os fundos de investimento sustentáveis não são todos iguais. Embora partilhem o mesmo objetivo podem assumir diferentes formatos, consoante a estratégia adotada e o tipo de ativos em que se aplica o capital.
Os principais tipos de fundos de investimento sustentáveis são:
Fundos ESG - Integram critérios ambientais, sociais e de governação na análise e seleção das empresas. O objetivo é selecionar as empresas com melhor desempenho em matérias de sustentabilidade ambiental e responsabilidade corporativa, de forma a reduzir riscos e promover uma maior resiliência a longo prazo.
Fundos de obrigações verdes - Estes fundos investem maioritariamente em green bonds (obrigações verdes), que são instrumentos de dívida emitidos para financiar projetos com impacto ambiental positivo, como: energias renováveis, eficiência energética, transporte sustentável e gestão de resíduos ou água.
De acordo com a Comissão Europeia e a International Capital Market Association (ICMA), estas obrigações devem cumprir critérios específicos de transparência e reporte quanto à utilização de fundos.
Fundos de investimento de impacto- Têm como objetivo gerar impacto ambiental ou social, além de retorno financeiro. Ao contrário de outros fundos sustentáveis, aqui o impacto não é apenas um critério de seleção, mas sim parte central da estratégia.
Fundos temáticos de sustentabilidade- Focam-se em setores ou tendências específicas relacionadas com empresas e sustentabilidade, como: transição energética, economia circular, tecnologias limpas, água e recursos naturais.
Fundos de Infraestrutura Sustentável - Investem em infraestruturas verdes, como parques eólicos, solares, transporte sustentável e edifícios ecológicos. Certificados de Depósito Verde - Produtos bancários que canalizam os fundos depositados para projetos ambientalmente sustentáveis.
Quais são os principais fundos de investimento sustentáveis disponíveis em Portugal?
Em Portugal, os investidores particulares e empresariais já dispõem de algumas opções de fundos de investimento sustentáveis e soluções com critérios ESG. Os principais fundos de investimento sustentáveis em Portugal incluem opções com foco em critérios ESG (ambientais, sociais e de governança), energias renováveis, água e saúde, com destaque para produtos de grandes instituições financeiras e gestoras.
Fundos de dívida e alocação com critérios ESG:
● Fundos ESG ABANCA - São fundos que integram critérios de sustentabilidade na seleção e gestão dos ativos, alinhados com a filosofia de investimento responsável.
● Carteira ABANCA 360 - Uma solução de gestão de carteiras que inclui um componente sustentável, na qual pelo menos uma parte significativa do capital investido é aplicada em fundos que promovem características ambientais e sociais.
Benefícios fiscais de investir em fundos de investimento sustentáveis
Investir em fundos de investimento, incluindo fundos sustentáveis ou ESG, pode trazer algumas vantagens fiscais dependendo da legislação do país e do tipo de fundo.
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Em muitos casos, os investidores só pagam imposto quando vendem ou resgatam as unidades do fundo. Em Portugal, os ganhos obtidos com a venda de unidades de fundos são geralmente tributados como mais-valias, tipicamente à taxa autónoma de 28% para particulares, o que significa que não há imposto enquanto o investimento não for realizado.
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Alguns regimes fiscais permitem reduzir a parte tributável quando os ativos são mantidos por vários anos. Em certos casos, pode existir exclusão parcial da tributação das mais-valias dependendo do período de detenção dos ativos no fundo.
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Os fundos têm um enquadramento fiscal próprio. Em Portugal, parte dos rendimentos obtidos dentro do fundo pode ser tributada ao nível do veículo de investimento ou diferida até ao investidor, dependendo do tipo de rendimento e da estrutura do fundo.
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Certos rendimentos e ganhos obtidos pelos fundos podem estar isentos ou ter tratamento fiscal específico, reduzindo a possibilidade de dupla tributação antes de chegar ao investidor.
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Algumas estruturas de investimento coletivo ou fundos especializados podem ter isenções de determinados impostos ou regimes mais favoráveis, sendo depois o imposto pago apenas pelos investidores quando recebem rendimentos ou vendem as unidades.
O que significam os critérios ESG?
Os critérios ESG, sigla para Environmental, Social and Governance, correspondem a um conjunto de fatores utilizados para avaliar o desempenho não financeiro de empresas e investimentos nestas três áreas fundamentais.
A integração dos critérios ESG tem como objetivo:
● Identificar possíveis riscos de sustentabilidade que possam impactar o desempenho financeiro;
● Avaliar o contributo das empresas para objetivos ambientais e sociais;
● Promover práticas empresariais que sejam mais responsáveis e maistransparentes.
Critérios ambientais (Environmental)
H3: Critérios ambientais (Environmental)
Os critérios ambientais (Environmental) referem-se ao impacto de uma empresa no meio ambiente e analisam o seu contributo para a sustentabilidade ambiental, através de aspetos como:
● Gestão de recursos naturais;
● Redução de emissões de carbono;
● Tratamento de resíduos;
● Economia circular;
● Proteção da biodiversidade.
Critérios sociais (Social)
Os critérios sociais (Social) avaliam a forma como as empresas gerem as suas relações com os trabalhadores, clientes, fornecedores e comunidades onde operam. São habitualmente considerados fatores de análise como:
● Condições de trabalho e segurança;
● Igualdade de género e diversidade;
● Respeito pelos direitos humanos;
● Políticas de formação e desenvolvimento profissional;
● Impacto na comunidade local.
Critérios de governação (Governance)
Os critérios de governação (Governance) analisam a estrutura e os mecanismos de gestão e controlo da empresa, com o objetivo de assegurar transparência, ética e responsabilidade. Este critério é essencial para investidores, uma vez que reduz riscos reputacionais e reforça a confiança na gestão interna da empresa. Os elementos mais relevantes para as boas práticas são:
● Composição e independência do conselho de administração;
● Políticas de remuneração justas e alinhadas com objetivos a longo prazo;
● Sistemas de controlo interno e gestão de risco;
● Prevenção de corrupção e conflitos de interesse internos;
● Transparência na divulgação de informação financeira e não financeira.
Como os critérios ESG influenciam as decisões de investimento
Uma vez que os consumidores estão cada vez mais exigentes, atender às práticas ESG torna as empresas mais responsáveis, transparentes e preparadas para operarem de forma mais eficiente e sustentável.
Desta forma, em vez dos investidores considerarem apenas os indicadores financeiros tradicionais, tendem cada vez mais a valorizar as organizações que demonstram um compromisso estruturado com práticas sustentáveis. Assim, as empresas com pontuações ESG mais elevadas tendem a ser vistas como menos expostas a riscos reputacionais e operacionais, o que pode influenciar positivamente a sua atratividade junto de investidores que procuram soluções sustentáveis e eficazes.